Como precificar com a reforma tributária: passo a passo com exemplo
Para precificar com a reforma, separe o preço atual em custo, tributos e margem, tire os tributos que vão sumir (PIS e Cofins em 2027; ICMS e ISS até 2033), desconte do custo os créditos de CBS e IBS das compras e some a CBS e o IBS por fora. Depois ajuste por tipo de cliente: empresa do regime regular recupera o imposto como crédito.
Em resumo
- CBS e IBS são cobrados por fora: o preço passa a ter duas partes, o valor do produto e o imposto destacado.
- Em 2027 sai PIS e Cofins e entra a CBS; ICMS e ISS só saem entre 2029 e 2033.
- O crédito amplo das compras reduz o custo líquido e pode permitir preço menor.
- Serviços com pouco crédito tendem a subir de preço; o comércio com alíquota cheia pode ficar estável ou cair.
- Para cliente empresa, o que importa é o preço sem o imposto, porque ele recupera a CBS e o IBS.
Neste artigo
A reforma tributária muda a forma de montar o preço, não só o valor do imposto. Hoje PIS, Cofins, ICMS e ISS ficam embutidos no preço. Com a CBS e o IBS, o imposto vem destacado por fora, e quase tudo o que você compra para a atividade gera crédito.
Quem só trocar uma alíquota pela outra vai errar o preço. Este passo a passo mostra como refazer a conta, com três exemplos e uma calculadora.
O que muda na formação do preço
Três mudanças mexem no preço:
- Imposto por fora. A CBS e o IBS não entram na própria base. O preço passa a ter duas partes: o valor do produto ou serviço e o imposto destacado na nota.
- Crédito amplo. Quase toda compra para a atividade gera crédito de CBS e IBS (art. 47 da LC 214/2025). O custo líquido das compras cai.
- Troca em etapas. Em 2027 sai PIS e Cofins e entra a CBS. ICMS e ISS caem de 2029 a 2032 e acabam em 2033, quando o IBS fica completo. O preço vai precisar de ajuste a cada ano da transição.
Passo a passo para refazer o preço
1. Separe o preço de hoje em partes
Pegue um item e quebre o preço em: custo das compras, outros custos (folha, aluguel, energia), tributos sobre a venda (PIS, Cofins, ICMS ou ISS) e margem. Sem essa separação, não dá para saber o que muda.
2. Tire os tributos que vão sumir
Em 2027, retire o PIS e a Cofins: 3,65% no regime cumulativo (lucro presumido) ou 9,25% no não cumulativo (lucro real). Mantenha ICMS e ISS até 2028.
3. Recalcule o custo líquido de créditos
Nas compras de fornecedores do regime regular, a CBS e o IBS destacados viram crédito. O seu custo passa a ser o valor sem esses tributos. Compras de fornecedores do Simples geram crédito menor, igual ao que eles pagaram no DAS.
4. Some a CBS e o IBS por fora
Aplique a alíquota sobre o valor sem tributos. Para 2027, a estimativa atual é de cerca de 9,11% de CBS e 0,1% de IBS. Se o item tem redução de 30% ou de 60%, aplique a alíquota reduzida. Veja as faixas em Alíquota da CBS e do IBS em 2027.
5. Ajuste por tipo de cliente e por canal
- Cliente empresa do regime regular recupera a CBS e o IBS como crédito. Para ele, o preço que importa é o valor sem os tributos.
- Consumidor final paga o total. Para ele, o preço da vitrine é o que conta.
- Vendas no cartão e no Pix vão ter o imposto separado na hora pelo split payment. O custo do capital de giro perdido entra no preço.
6. Revise tabela, contratos e comunicação
Atualize a tabela de preços, os orçamentos e os contratos longos, e explique a mudança aos clientes empresa: em muitos casos, o custo líquido para eles cai.
Três exemplos em reais
A conta abaixo mantém a mesma receita líquida de tributos sobre a venda: tira os tributos antigos e soma CBS e IBS por fora, com as estimativas atuais. Não considera os créditos das compras, que reduzem o custo.
| Caso | Hoje | 2027 | 2033 |
|---|---|---|---|
| Serviço para consumidor final, lucro presumido (PIS e Cofins 3,65%, ISS 5%) | R$ 100,00 | R$ 105,22 (+5,2%) | R$ 116,85 (+16,8%) |
| Escritório de contabilidade, lucro presumido, redução de 30% (ISS 5%) | R$ 100,00 | R$ 102,56 (+2,6%) | R$ 109,20 (+9,2%) |
| Comércio, lucro real (PIS e Cofins 9,25%, ICMS 18%) | R$ 100,00 | R$ 99,11 (−0,9%) | R$ 93,05 (−6,9%) |
O que esses números mostram:
- Serviços com pouca compra sentem mais. O custo é quase todo folha, que não gera crédito, e a alíquota nova é maior que a soma de PIS, Cofins e ISS.
- Profissões regulamentadas têm redução de 30% e sentem menos.
- O comércio com alíquota cheia pode até baixar o preço. Hoje o ICMS é calculado por dentro e o PIS e a Cofins também ficam embutidos; com a CBS e o IBS por fora, a mesma carga aparece com outro número. Mas atenção: o resultado real depende dos créditos de hoje e de amanhã, de benefícios de ICMS e de substituição tributária.
Calcule o seu preço
Seu preço em 2027 e em 2033
Conta simplificada: tira do preço os tributos antigos e soma CBS e IBS por fora, com as alíquotas estimadas em 2026 (≈ 9,11% de CBS e 0,1% de IBS em 2027; ≈ 27,91% no total em 2033). Não considera o crédito das suas compras, que reduz o custo e pode permitir um preço menor. Cliente empresa do regime regular recupera a CBS e o IBS como crédito.
Erros comuns na precificação da reforma
- Somar a alíquota nova sem tirar a antiga. O preço explode e você perde venda.
- Esquecer o crédito das compras. Você cobra imposto que não vai pagar e fica caro.
- Comparar alíquota por fora com alíquota por dentro. 27,91% por fora equivalem a cerca de 21,8% do preço final.
- Tratar todo cliente igual. Para empresa do regime regular, o imposto vira crédito. Para o consumidor, não.
- Ajustar uma vez só. A transição dura até 2033; o preço precisa de revisão a cada ano.
O que fazer agora
- Escolha os 20 itens que mais vendem e refaça o preço de cada um com os seis passos.
- Confirme a alíquota de cada item: cheia, reduzida em 30% ou 60%, ou zero.
- Peça aos fornecedores a confirmação de como vão emitir nota em 2027 e se vão estar no regime regular.
- Revise contratos de preço fixo e inclua cláusula de ajuste pela troca de tributos.
- Inclua o custo do split payment nas vendas no cartão. Veja Split payment: como funciona.
Perguntas frequentes
Vou precisar aumentar meus preços em 2027?
Depende do setor e dos créditos. Empresas de serviço no lucro presumido, com poucas compras, tendem a ver a carga subir e precisam rever o preço. Comércio e indústria com muitas compras creditáveis podem manter ou até reduzir. A única forma de saber é refazer a conta item por item.
O preço na prateleira vai mostrar o imposto separado?
A CBS e o IBS são destacados na nota fiscal, por fora do valor do produto. Para o consumidor final, o que importa continua sendo o total a pagar, então a vitrine deve mostrar o preço com os tributos. Para clientes empresa, vale negociar pelo valor sem os tributos, que é o custo real dele.
Preciso mudar os contratos de longo prazo?
Vale revisar. Contratos com preço fixo assinados antes da reforma podem ficar desequilibrados com a troca de tributos. A LC 214/2025 criou um procedimento de reequilíbrio para contratos com a administração pública; nos contratos privados, a saída é negociar uma cláusula de ajuste.
Como o split payment entra no preço?
O split payment separa o imposto na hora do pagamento. O dinheiro que hoje fica algumas semanas no caixa deixa de existir, e repor esse capital de giro tem custo financeiro. Esse custo precisa entrar no preço, principalmente em vendas parceladas no cartão.
Fontes
- Lei Complementar nº 214/2025 (texto atualizado) · Câmara dos Deputados
- Emenda Constitucional nº 132/2023 · Presidência da República
- Comitê estima alíquota de IBS e CBS em 28%, acima do teto previsto na reforma · Folha de S.Paulo, 05/08/2026
- Quem paga a conta do desequilíbrio tributário nos contratos públicos · Migalhas, 20/07/2026
Conteúdo educativo, baseado na LC 214/2025, nos regulamentos e em comunicados oficiais até a data de atualização. Não substitui a orientação do seu contador. Achou um erro? Veja a nossa política de correções.